Por Lucas Vinícius Guimarães Macieski
Percorrendo um caminho que vai na contramão das propostas
covers superestimadas pelo público das casas mais cheias de muitas cidades,
artistas usam seus instrumentos em novas sonoridades que, desvalorizadas,
carecem de recurso tanto para sua execução como para circulação.
Dessa forma,
podemos dizer que a música autoral é, além de arte, uma militância.
Em Cuiabá, cidade que viveu momentos de efervescência
independente por muitas vezes, hoje o autoral vem perdendo espaço.
Apesar de
termos grandes nomes reconhecidos por suas boas apresentações dentro e fora do
Brasil, a música nova tem caminhado a passos lentos, como se algo tivesse
acontecido e a cena, que já havia passado da puberdade, tenha voltado a
engatinhar.
Eu, particularmente, não acredito na hipótese de queda na
qualidade das composições. Não sei nem quanto a quantidade.
Acredito que
atualmente exista um bom número de compositores interessantes emergindo na
cena. Quanto à qualidade das execuções, percebo sim uma dificuldade muito
grande nesse sentido.
Há quem diga que o mercado da música é o mais competitivo
que existe. Por um motivo óbvio, banda que executa melhor o seu som tende a
atrair mais olhares.
O artista melhor adaptado às suas ferramentas ganha
evidência. O fator equipamento também é crucial, também por motivos óbvios.
Então imagina só, você aprendeu tocar há poucos anos, compôs seus próprios
arranjos junto à sua banda e aí entra num mercado onde o público vai, de alguma
forma, comparar o seu trabalho ao de pessoas que tocam em condições muito melhores,
os clássicos mais arrebatadores da história. Como sobreviver nesse mercado?
Na esteira do processo gradativo dessa espécie de
sucateamento da cadeia produtiva musical estão uma série de fatores.
Um dos
principais é justamente o da falta de demanda para as bandas autorais,
proveniente do direcionamento das atenções que vem ocorrendo em relação ao
cover. O que, naturalmente, não agrega em nada para quem tenta disputar atenções
com uma nova composição.
Nada contra as bandas covers, mas é fato que na busca por
uma remuneração minimamente satisfatória, muitas pessoas deixam seus projetos
autorais de lado.
As casas que trazem essa proposta sabem bem disso e obtém seu
lucro através da desvalorização do circuito alternativo.
Vou mais longe
ressaltando que muitos dos músicos mais virtuosos do jazz, blues e outros
estilos, não menos sofisticados, estão totalmente absorvidos pelo sertanejo,
possibilidade viável para quem quer
ganhar um dinheiro tocando.
Outro ponto chave que contribui no quadro atual da cena independente
é a desarticulação entre os próprios artistas do segmento.
Diante de tantas
dificuldades, é necessário viabilizar meios para que o máximo de artistas se
estruturem para criar, ensaiar, produzir, gravar, se apresentar, distribuir
material. Só assim, podemos atender à competitividade que o meio exige.
Se o
som não tiver pegada, não envolver ou se a execução não for redonda, o público
vira as costas. Material para distribuição impulsiona a visibilidade de um
projeto.
Considerando o preço dos equipamentos, dos ensaios, da passagem de
ônibus, da gasolina, a má remuneração ou até mesmo falta dela, parece ser
melhor desistir mesmo.
Entretanto, problematizando coletivamente cada pauta,
soluções se tornam mais palpáveis.
A mídia tradicional não tem sido tão aberta à cena local.
Materiais auxiliares de divulgação para os nossos compositores do underground
não são gerados através de seus veículos.
Assim nos deparamos então com mais
uma demanda: buscar mídias alternativas que publiquem conteúdos que valorizem o
que nós temos de genuinamente regional.
Essas mídias funcionando em rede junto
com as páginas dos próprios artistas, podem ampliar o alcance da circulação dos
projetos.
Integrar artes nos eventos é uma estratégia que atrai.
Dividir o espaço de uma festa com representantes independentes de outros
segmentos artísticos que sejam relacionados agrega novos valores e pode também
ser uma ótima pedida para quem precisa necessariamente de correligionários para
subsistir.
Afinal, representações coletivas são capazes de uma comunicação mais efetiva tanto na
cobrança por politicas públicas como também nas negociações com terceiros.
Ainda nessa perspectiva de que o artista independente tem, em
torno de si, uma ideologia dentro de um sistema, encontrando-se em situação
de minoria, é interessante também que dialogue com as classes com as quais se
identifica, pois o público de quem não se contenta, é também quem não está
contente.
A revolução de pensamento que alguns grupos de minorias estão
experimentando na prática é momento propício para elevação das artes. Esses agentes culturais, junto aos outros artistas, às mídias, às “figuras
carimbadas” da cena, são potenciais formadores de opinião.
Concluo então que toda a cena alternativa da Hellcity precisa avançar, oferecendo possibilidades rentáveis a longo prazo, para que
cada projeto, individualmente, tenha eficácia na consolidação de seu sucesso.
Ótimo texto. Bastante esclarecedor.
ResponderExcluirTopp mesmo Vinicius parabéns!!
ExcluirIsso que está faltando a um bom tempo a mobilização e união das bandas...
ResponderExcluirIsso que está faltando a um bom tempo a mobilização e união das bandas...
ResponderExcluirTexto muito bom cara, conseguiu descrever bem como está a cena reginal
ResponderExcluirCara, vc deu o verbo. A ideia é essa mesmo!
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