sábado, 17 de setembro de 2016

BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO À MÚSICA AUTORAL E CENA INDEPENDENTE CUIABANA

Por Lucas Vinícius Guimarães Macieski

Percorrendo um caminho que vai na contramão das propostas covers superestimadas pelo público das casas mais cheias de muitas cidades, artistas usam seus instrumentos em novas sonoridades que, desvalorizadas, carecem de recurso tanto para sua execução como para circulação. 

Dessa forma, podemos dizer que a música autoral é, além de arte, uma militância.

Em Cuiabá, cidade que viveu momentos de efervescência independente por muitas vezes, hoje o autoral vem perdendo espaço

Apesar de termos grandes nomes reconhecidos por suas boas apresentações dentro e fora do Brasil, a música nova tem caminhado a passos lentos, como se algo tivesse acontecido e a cena, que já havia passado da puberdade, tenha voltado a engatinhar.

Eu, particularmente, não acredito na hipótese de queda na qualidade das composições. Não sei nem quanto a quantidade. 

Acredito que atualmente exista um bom número de compositores interessantes emergindo na cena. Quanto à qualidade das execuções, percebo sim uma dificuldade muito grande nesse sentido.

Há quem diga que o mercado da música é o mais competitivo que existe. Por um motivo óbvio, banda que executa melhor o seu som tende a atrair mais olhares

O artista melhor adaptado às suas ferramentas ganha evidência. O fator equipamento também é crucial, também por motivos óbvios. 

Então imagina só, você aprendeu tocar há poucos anos, compôs seus próprios arranjos junto à sua banda e aí entra num mercado onde o público vai, de alguma forma, comparar o seu trabalho ao de pessoas que tocam em condições muito melhores, os clássicos mais arrebatadores da história. Como sobreviver nesse mercado?

Na esteira do processo gradativo dessa espécie de sucateamento da cadeia produtiva musical estão uma série de fatores. 

Um dos principais é justamente o da falta de demanda para as bandas autorais, proveniente do direcionamento das atenções que vem ocorrendo em relação ao cover. O que, naturalmente, não agrega em nada para quem tenta disputar atenções com uma nova composição. 

Nada contra as bandas covers, mas é fato que na busca por uma remuneração minimamente satisfatória, muitas pessoas deixam seus projetos autorais de lado. 

As casas que trazem essa proposta sabem bem disso e obtém seu lucro através da desvalorização do circuito alternativo

Vou mais longe ressaltando que muitos dos músicos mais virtuosos do jazz, blues e outros estilos, não menos sofisticados, estão totalmente absorvidos pelo sertanejo, possibilidade viável para quem quer ganhar um dinheiro tocando.

Outro ponto chave que contribui no quadro atual da cena independente é a desarticulação entre os próprios artistas do segmento

Diante de tantas dificuldades, é necessário viabilizar meios para que o máximo de artistas se estruturem para criar, ensaiar, produzir, gravar, se apresentar, distribuir material. Só assim, podemos atender à competitividade que o meio exige. 

Se o som não tiver pegada, não envolver ou se a execução não for redonda, o público vira as costas. Material para distribuição impulsiona a visibilidade de um projeto. 

Considerando o preço dos equipamentos, dos ensaios, da passagem de ônibus, da gasolina, a má remuneração ou até mesmo falta dela, parece ser melhor desistir mesmo. 

Entretanto, problematizando coletivamente cada pauta, soluções se tornam mais palpáveis.

A mídia tradicional não tem sido tão aberta à cena local

Materiais auxiliares de divulgação para os nossos compositores do underground não são gerados através de seus veículos. 

Assim nos deparamos então com mais uma demanda: buscar mídias alternativas que publiquem conteúdos que valorizem o que nós temos de genuinamente regional

Essas mídias funcionando em rede junto com as páginas dos próprios artistas, podem ampliar o alcance da circulação dos projetos.

Integrar artes nos eventos é uma estratégia que atrai. 

Dividir o espaço de uma festa com representantes independentes de outros segmentos artísticos que sejam relacionados agrega novos valores e pode também ser uma ótima pedida para quem precisa necessariamente de correligionários para subsistir. 

Afinal, representações coletivas são capazes de uma comunicação mais efetiva tanto na cobrança por politicas públicas como também nas negociações com terceiros.

Ainda nessa perspectiva de que o artista independente tem, em torno de si, uma ideologia dentro de um sistema, encontrando-se em situação de minoria, é interessante também que dialogue com as classes com as quais se identifica, pois o público de quem não se contenta, é também quem não está contente. 

A revolução de pensamento que alguns grupos de minorias estão experimentando na prática é momento propício para elevação das artes. Esses agentes culturais, junto aos outros artistas, às mídias, às “figuras carimbadas” da cena, são potenciais formadores de opinião.

Concluo então que toda a cena alternativa da Hellcity precisa avançar, oferecendo possibilidades rentáveis a longo prazo, para que cada projeto, individualmente, tenha eficácia na consolidação de seu sucesso.

6 comentários:

  1. Isso que está faltando a um bom tempo a mobilização e união das bandas...

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  2. Isso que está faltando a um bom tempo a mobilização e união das bandas...

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  3. Texto muito bom cara, conseguiu descrever bem como está a cena reginal

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  4. Cara, vc deu o verbo. A ideia é essa mesmo!

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